Thursday, July 16, 2009

Spleen & Tubercolose

Think, everyone that you kiss, do they cease to exist when you stop being missed? (Ladytron)

Eu preciso resistir à melancolia da noite
Eu preciso resistir ao encanto triste da lua
A agonia surda da vida
A injustiça da solidão permanente
A vida soluçando o sol na minha mente
Tudo que existe e vem à tona de repente
Rugidos que permeiam o ar, são meus
Tudo corre em seu lugar, entregue ao olhar de Deus.
A violência feliz do meu amor
Sua autoridade matriz no meu coração.
Eu preciso resistir à melancolia da noite
Que me assoma nesses dias parados
Onde os sorrisos decantados assentem somente aquilo que importa,
Quando a vida é só isso - é uma finalidade remota.
Eu preciso suportar o peso da rotina
Eu preciso desafiar a morte na esquina
Eu preciso acreditar em Deus
Nos ditos e feitos tortos meus
Tudo que jaz na lembrança, expurgado em nome
Da preservação útil da esperança
Da corrente que se quebra diariamente
E se constrói errada, e sempre, novamente.
Carne entorpecida, de preguiça distraída
Sorve o vento, espera o caminho aparecer com a saída.
Paciência, porque é preciso terminar este dia
E lutar contra a melancolia da noite
Contra as promessas de cansaço do dia seguinte
Contra os fracassos que se anunciam com o raiar do sol
Contra os brilhos de seus olhos no lençol
É preciso lutar contra o mau
É preciso não desejar cair nos braços do demônio
Mas como eu vacilo, mas como eu quero me deixar cair e me levar
Pelas forças alheias, pelas ondas desconhecidas do mar,
Por tudo que o vento possa carregar.
Vento que leva, leve minha existência que se arrasta com pesar
Minhas culpas, minhas más desculpas,
Meu perdões ingratos ressentidos,
Meus ódios esfriados ressequidos,
Meus calos ressecados,
Meus amores esquecidos,
Meus sonhos desavisados,
Meus sentimentos nus calados,
Tempo perdido, perdido - se iludir abandonado.
Preciso lembrar de parar de me sentir assim
Preciso parar de sonhar,
Parar de cantar, parar de ouvir pensar
De lembrar, de sentir mal sempre,
A dor no ventre,
O meu importar
De me importunar
De assistir TV
De pensar em você
E te amar sem te ter
Aqui.

Sunday, July 12, 2009

Albert Camus Bebendo Ypióca

O olhar se perde
Isto não tem sentido
Você não vê?
A pergunta é um perigo.
E nós vamos
Sem sentido
Não há perigo algum
Deslumbramento contido
Já somos adultos
O tudo é normal
Navega sereno
O barco surreal
Você e eu imersos
Vida real
Insensíveis ao absurdo
Respirando mal
Cegueira e mudez
Conforto burguês
Gritos de fome
E nossa eterna surdez
Você mente para si
Você se convence
Escuridão encobre a verdade
Mentira do tempo vence
Eu estou do seu lado
Miséria caminha ao lado
Sussurra lamentos distantes
Você está do meu lado?
Você prova que eu existo
É injusto, mas eu resisto
Calado, eu fico calado
Eu permaneço, eu permaneço.
O olhar se perde
Isto não tem sentido
Você não vê?
A pergunta é um perigo.

Friday, July 03, 2009

Frio Paulista & Lady Chatterley



Sigo em São Paulo, ainda apaixonado por estações de metrô e Avenida Paulista. Os desenhos que saem inúmeros ultimamente são meu jeito de vencer insônia. Ou seja, é feito de madrugada, eu tenho outras ocupações menos prazeirosas - aquelas que mantem os dígitos da conta corrente. Pinto cada um em 2 ou 3 horas, sem firulas. Tem me feito melhor do que escrever aqui uma estória pouco convincente e mal-escrita.

E sempre foi essa idéia desse tal blogue - is all about fun. Talvez eu volte a sentir prazer escrevendo o que agora tenho deslizando um pincel encharcado de tinta acrílica: o cheiro, a textura do papel, a sedução das cores, dos erros que se tornam belos no improviso - talvez. O improviso na tela tem o charme de um intermezzo blues, mas no texto fica algo beat - mas tem que ser um bom beat, e não uma desculpa para ser ruim com posse de "transgressor de estilos". Aff.

A novidade é que Sampa vai se enraizando em mim mais do que antes. Como uma moça feia que você a descobre charmosa, no jeito com que arruma os cabelos, ou na voz com que se dirige à você. Como uma paixão impossível inesperada. Como uma música dificil do Radiohead, ou uma harmonia complicada de Chopin. Como se não quisesse nada. E te toma TUDO.

Sunday, June 28, 2009

Varanda & Sentimentos Triviais

Ele viu nos olhos dela que o caso era sério.
- Você não me ama mais.
Amava-a? Ele não sabia.
- Claro que ainda te amo, mas que bobagem...
O que mais poderia dizer? Que não a amava mesmo? Ali, naquela hora? Não. As coisas podiam se acertar, ele só precisava de tempo. Ela devia esperar, tudo se arrumaria, mas não agora, por Deus. Ela recomeçou a chorar. Ficava terrível quando chorava, toda a sua beleza frágil tornava-se um turbilhão de lágrimas, o rosto molhado avermelhava-se, todo seu corpo era reduzido à essa repulsiva fraqueza que, quando se expõe assim, parece impor uma reciprocidade alheia à intimidade exposta das lágrimas. O choro parecia a ele uma rude invasão de seu espírito exigindo contrapartidas, um desrespeito. As mulheres sempre faziam isso, nunca o que lhes dava era suficiente, elas queriam sua alma a qualquer preço, pareciam demônios famintos. Mas que inferno, e aquilo era violento, era uma chantagem! Por que ela não o entendia? "Ridículo, ridículo" - pensava ele, e sentiu-se mal – , "eu queria apenas ir embora, está chovendo e ela não pára de chorar. Não é minha culpa, afinal. Não é".
- Não precisa chorar, olha, tome um lenço...
- Por que você insiste na farsa?
- Eu não tenho culpa. Porque você não pára logo com essa choradeira imbecil, droga?
Se arrependeu logo depois, tinha sido estúpido. Mas era o que realmente pensava, não tentou consertar. Guardou o lenço de volta ao bolso, e desviou o olhar do rosto encharcado dela. Começou a chover mais. Os barulhos dos pingos da chuva se chocando sobre o teto de zinco da varanda se aceleravam, e cada vez mais alto os sons da água e do teto se impunham aos ruídos do choro dela. Ele sentiu-se melhor, assim. Distraiu-se. Observou por um instante as goteiras enchendo os vasos de flores; o excesso de água derretia a terra insuficiente da roseira que, tendo seu apoio derretido gradualmente, inclinava-se para fora do vaso, à força de seu peso. A natureza e a lei física inexorável. Quase esqueceu ela parada na sua frente.

- Eu vou embora, para sempre. Nunca pensou em sua filha ou em mim. Adeus.

Ele realmente queria que ela ficasse? Talvez não mais a amasse. Era o amor a fidelidade eterna? Talvez não pudesse ser eternamente fiel. Talvez não pudesse amar, mas não queria que ela fosse embora, não naquela hora – estava chovendo muito. Na verdade, não se importava muito; mas os olhos dela permaneciam culpando-o por fazê-la ir. "Ela continua me olhando, o que mais quer de mim?” Tentou articular algum pedido de reconciliação, queria dizer: "Fique". Mas sequer sua língua, sequer os músculos de sua face, sequer seus olhos puderem exibir algum sinal, alguma súplica. Ele queria dizer algo para aquela mulher à sua frente que, a despeito da despedida há pouco, ainda esperava, por alguns momentos, alguma reação do rosto de dele, uma reação que não vinha. Era uma pequena revolução que se instalava ali, na suas vidas, mas ele ficou calado e parado, e mesmo seu coração estava inerte: quereria mesmo ele que ela ficasse, com sua filha, ele as queria? Perguntou-se isto inúmeras vezes, naqueles poucos segundos, enquanto ela esperava em seus olhos mudos alguma resposta. Ele não sabia, nunca soube; nada disse, e nada fez. Apenas observou ela virar-se rapidamente e partir, sem fechar a portinha da varanda. Ela rapidamente sumiu em meio à chuva, que se acelerou quando ela saiu. “As nuvens podem reagir melhor a esse momento do que eu”, pensou ele. Chegou mesmo a pensar em correr atrás, e dizer tudo que se deve dizer num momento assim. Mas chovia muito, muito.

Lies.

Monday, June 08, 2009

Agosto, 2002.

Nossos castelos de ilusão
Nossos planos no papel
Eu nem sabia a direção
Mas pisava as nuvens com os pés no céu
Me guiava no vento a sua sensação
Caminhávamos juntos, mesmo sem razão

Você me tomou pelas mãos
Seguiu na dianteira me norteando
Minha dependência selou a união
Você era apenas tudo o que eu estava buscando.

Deixei que você rabiscasse o caminho
Pensava até nem poder mais seguir sozinho
Enquanto isso, o mundo ia longe.
Ficou então combinado:
Ninguém nos tocava.
Você me protegia
E eu só te amava.

Seguimos uma jornada sem previsão
Sem expectativas, sem roteiros
Durou pouco menos que um verão
Mas ocupou dias inteiros
Logo, o tédio invade sua expressão
E meu andar independente se refaz inteiro
Mas ainda caminhávamos juntos, sem razão

Traçamos retas cruzadas em nossas vidas
Já há algo seu mim
Tratamos agora distantes nossas feridas
Nem sei porque é assim
Eu odeio despedidas
Mas já chegamos no fim.
Eu te abraço, porque já é hora
De eu e você desabar de volta pro chão

Tuesday, June 02, 2009

I find it harder to be a gentleman all the time



O White Stripes me impressiona mais quando eu vou buscar seus discos mais antigos. O primeiro deve figurar com certeza entre os melhores albúns dos últimos tempos e - por que não? - dos maiores all time. Os Stripes seguem uma carreira consistente, é uma banda que prova que rock bom NÃO parou em 1977. Mesmo que a referência deles seja rock antigo: quem não reconhece Led Zeppelin e Black Sabbath na música do duo? Mas eles não só reciclam, as letras são muito boas, os riffs são musculosos e a gravação é old school.

A regravação de Dylan nesse disco - "One More Cup of Coffee" - recupera uma grandiosa música não devidamente reverenciada. Mas a minha favorita dos Stripes so far, e não é desse disco, é "Girl, You Have no Faith in Medicine".

Sunday, May 31, 2009

Recente Aquisicao



Do mesmo autor de High Fidelity, que esta facil no meu top ten books. Eu comecei a ler A Long Way Down em pdf em 2006, mas abandonei a leitura. Com ele nas maos, me redimo agora (PS: sem acentos hoje). Recomendo, apenas 20 dinheiros.

Thursday, May 21, 2009

Saint Martin's Girl

Today I dreamt about you
I saw then your glowing smile as a child
Today I woke up so blue
Just because I remember you

So many years along the way have passed
But the beauty the past of you in me impressed
Seem to never ever vanish.
Sometimes I think of your dark straight hair
I recall you delicate white skin
I even sense the sweet scent of your youth
Which shone then so bright from you.

All that I wanted to share
I did keep within.
We are not kids anymore
And that’s makes me blue
Remember you from time to time
And having of you no news, no clue
Only I have is these recollections of my mind.

Today I dreamt about you
As when we’re just children
Today I woke up so blue
‘Cause you still keep my heart stolen,
Sweet St Martin’s girl.

Monday, May 04, 2009

João e o Avião

João entrou no avião trôpego de malas e mochila, enquanto procurava o assento na passagem. Quase confundiu a poltrona, estava nervoso. A conexão demorou horas, seus óculos estavam sujos, ele estava cansado. Acomodou-se finalmente na janela. Sentou-se de seu lado um homem careca, magro, pálido. Ele vestia um terno branco, uma gravata branca, e sapatos brancos. “Uma figura impressionante”, pensou João, enquanto o avião decolava e sua atenção de desviava para a decolagem.

Aquela eterna brincadeira da gravidade com seu estômago, nunca se acostumava, cada decolagem era uma estréia. Ficava aborrecido com isso, foram tantas viagens, e qualquer leve trepidação acossava-o de um frio nas pernas, uma leve náusea. “Esse treco não pode cair hoje, meus pais não morreram ainda, minha mãe não fica sem mim, coitada, trabalhou tanto, não seria liricamente correto de Deus me levar antes dela. Tadinha da minha mãe. Faz ano que não ligo pra ela. Olha o avião balançando e o cara da frente falando sem parar, como se essa caravela não fosse cair. Mas não vai cair, não seria liricamente correto de Deus, eu antes dos meus velhos. Nós ainda estamos subindo? Mais de ano e meus pais podem estar por aí... e se eles morreram? Ai meu Pai, se eles morreram, e ninguém me avisou? Então Deus pode me levar também!”

“Mas sou jovem, não seria poeticamente correto... Os bons morrem cedo, dizem... Mas eu nunca fui bom, Deus sabe, que sacanagem essa agora, na hora de me castigar eu sou “O Ruim”, pô, agora morro como “Jovem Bom”? Bem sabes que eu não vou a Igreja há anos, que eu roubo livro de sebos, que eu não dou lugar pros velhinhos no ônibus, que eu cobiço a mulher do próximo – que por sinal é mulher de amigo meu e ainda é meu vizinho, olha só o agravante –, agora essa de “bom”? Deixe-me viver e verás as sacanagens que eu vou fazer, me dá uma chance, eu nunca fiz um grande mal, nunca tive oportunidade, afinal sou jovem e estou para morrer hoje...”.

O avião sacoleja: “Meu Deus, desculpa, estou divagando, é o stress da vida moderna, não me leva, eu tenho uma missão para cumprir em teu nome, assim que arrumar um emprego, que aliás não aparece nunca, bem que o Senhor podia dar uma mãozinha né? Mas esse salário xulé é foda, Senhor, é foda... Desculpe a blasfêmia, Pai..., mas não me leva hoje, jovem”. O avião estabiliza então da decolagem e passa a planar sereno na altitude de atmosfera rarefeita. “Valeu, Senhor, uma a menos, passou perto!”.

O estranho careca desata os cintos, parece querer se levantar, isso quando as aeromoças – nada bonitas, por sinal – vinham trazendo o suco. O homem de terno branco não se intimida com o aviso da aeromoça – a mais feia da dupla – aconselhando-o a sentar-se. “Vou derrubar esse avião, se ninguém me impedir!”, bradou o careca de terno branco, em tom solene. Todos da frente olharam pra trás, os de trás continuaram a olhar pra frente. Nenhuma resposta. Um sussurro ou outro. “Vou derrubar esse avião, se ninguém me impedir!”, retornou o careca. “Senta aí e não amola”, disse um passageiro. João pensa consigo: “E essa agora? Eu quase morrendo aqui e deixam entrar um maluco. E se ele tiver bombas? Meu Deus, sou tão jovem, morrer agora, minha mãe não agüentaria...”.

O estranho careca movimenta o braço direito e grande turbulência se faz do lado direito do avião: garrafas pet e sucos das aeromoças voam por sobre os passageiros, gente desafivelada ejeta-se do banco, o caos. O sujeito desce o braço, e a calmaria volta como que por mágica. Quando levanta o braço esquerdo, nova tempestade aérea no lado esquerdo: o homem parece controlar os braços como se fossem as asas do avião, e de maluco ele se torna o comandante, o poder do avião, o destino dos passageiros – um santo, mas um santo louco. As pessoas se atemorizam – crêem; oferecem-lhe dinheiro, ajoelham a seus pés, pedem clemência. O careca permanece impassível. Perguntam-lhe o que poderiam fazer para que o seu poder sob o avião poupasse a vida dos passageiros.

“Vamos morrer todos, a não ser que me impeçam. E só podem me impedir me matando”.

E quem mataria o Deus dos ares? Todo mundo estava empedrado nas poltronas com medo. O avião ainda trepidava forte. João começou a rezar: “Um enfarte nele meu Deus, um homem corajoso com um arpão, qualquer coisa... Minha mãe, meu Deus”. Um passageiro ergue-se e agarra o careca pelo pescoço. Os dois se jogam no chão, presos um ao outro, o careca perdendo fôlego, o passageiro era grande e forte, apertava com forca o pescoço do outro, muito embora agora cada virada dos dois fizesse uma baita bagunça no aeroplano, o careca morrendo ainda tinha poderes.

O careca começou a ficar azul sob os braços do oponente. Morreu com a língua para fora. A calmaria então volta aos assentos do ônibus aéreo. O passageiro salvador é saudado por todos, vivas lhe são dados por uma velhinha animada que tinha muito pra viver ainda – segundo ela mesma –, o careca fica estirado pelo chão, pisoteado por passageiros assustados que ficaram valentes. João fica todo orgulhoso: agradece a Deus, que usou do passageiro forte para atender seu pedido e poupar sua velha mãe do desgosto, o avião aterrissa em Congonhas em paz, graças a João, o verdadeiro herói, anônimo e cagão, mas cheio de fé.