João entrou no avião trôpego de malas e mochila, enquanto procurava o assento na passagem. Quase confundiu a poltrona, estava nervoso. A conexão demorou horas, seus óculos estavam sujos, ele estava cansado. Acomodou-se finalmente na janela. Sentou-se de seu lado um homem careca, magro, pálido. Ele vestia um terno branco, uma gravata branca, e sapatos brancos. “Uma figura impressionante”, pensou João, enquanto o avião decolava e sua atenção de desviava para a decolagem.
Aquela eterna brincadeira da gravidade com seu estômago, nunca se acostumava, cada decolagem era uma estréia. Ficava aborrecido com isso, foram tantas viagens, e qualquer leve trepidação acossava-o de um frio nas pernas, uma leve náusea. “Esse treco não pode cair hoje, meus pais não morreram ainda, minha mãe não fica sem mim, coitada, trabalhou tanto, não seria liricamente correto de Deus me levar antes dela. Tadinha da minha mãe. Faz ano que não ligo pra ela. Olha o avião balançando e o cara da frente falando sem parar, como se essa caravela não fosse cair. Mas não vai cair, não seria liricamente correto de Deus, eu antes dos meus velhos. Nós ainda estamos subindo? Mais de ano e meus pais podem estar por aí... e se eles morreram? Ai meu Pai, se eles morreram, e ninguém me avisou? Então Deus pode me levar também!”
“Mas sou jovem, não seria poeticamente correto... Os bons morrem cedo, dizem... Mas eu nunca fui bom, Deus sabe, que sacanagem essa agora, na hora de me castigar eu sou “O Ruim”, pô, agora morro como “Jovem Bom”? Bem sabes que eu não vou a Igreja há anos, que eu roubo livro de sebos, que eu não dou lugar pros velhinhos no ônibus, que eu cobiço a mulher do próximo – que por sinal é mulher de amigo meu e ainda é meu vizinho, olha só o agravante –, agora essa de “bom”? Deixe-me viver e verás as sacanagens que eu vou fazer, me dá uma chance, eu nunca fiz um grande mal, nunca tive oportunidade, afinal sou jovem e estou para morrer hoje...”.
O avião sacoleja: “Meu Deus, desculpa, estou divagando, é o stress da vida moderna, não me leva, eu tenho uma missão para cumprir em teu nome, assim que arrumar um emprego, que aliás não aparece nunca, bem que o Senhor podia dar uma mãozinha né? Mas esse salário xulé é foda, Senhor, é foda... Desculpe a blasfêmia, Pai..., mas não me leva hoje, jovem”. O avião estabiliza então da decolagem e passa a planar sereno na altitude de atmosfera rarefeita. “Valeu, Senhor, uma a menos, passou perto!”.
O estranho careca desata os cintos, parece querer se levantar, isso quando as aeromoças – nada bonitas, por sinal – vinham trazendo o suco. O homem de terno branco não se intimida com o aviso da aeromoça – a mais feia da dupla – aconselhando-o a sentar-se. “Vou derrubar esse avião, se ninguém me impedir!”, bradou o careca de terno branco, em tom solene. Todos da frente olharam pra trás, os de trás continuaram a olhar pra frente. Nenhuma resposta. Um sussurro ou outro. “Vou derrubar esse avião, se ninguém me impedir!”, retornou o careca. “Senta aí e não amola”, disse um passageiro. João pensa consigo: “E essa agora? Eu quase morrendo aqui e deixam entrar um maluco. E se ele tiver bombas? Meu Deus, sou tão jovem, morrer agora, minha mãe não agüentaria...”.
O estranho careca movimenta o braço direito e grande turbulência se faz do lado direito do avião: garrafas pet e sucos das aeromoças voam por sobre os passageiros, gente desafivelada ejeta-se do banco, o caos. O sujeito desce o braço, e a calmaria volta como que por mágica. Quando levanta o braço esquerdo, nova tempestade aérea no lado esquerdo: o homem parece controlar os braços como se fossem as asas do avião, e de maluco ele se torna o comandante, o poder do avião, o destino dos passageiros – um santo, mas um santo louco. As pessoas se atemorizam – crêem; oferecem-lhe dinheiro, ajoelham a seus pés, pedem clemência. O careca permanece impassível. Perguntam-lhe o que poderiam fazer para que o seu poder sob o avião poupasse a vida dos passageiros.
“Vamos morrer todos, a não ser que me impeçam. E só podem me impedir me matando”.
E quem mataria o Deus dos ares? Todo mundo estava empedrado nas poltronas com medo. O avião ainda trepidava forte. João começou a rezar: “Um enfarte nele meu Deus, um homem corajoso com um arpão, qualquer coisa... Minha mãe, meu Deus”. Um passageiro ergue-se e agarra o careca pelo pescoço. Os dois se jogam no chão, presos um ao outro, o careca perdendo fôlego, o passageiro era grande e forte, apertava com forca o pescoço do outro, muito embora agora cada virada dos dois fizesse uma baita bagunça no aeroplano, o careca morrendo ainda tinha poderes.
O careca começou a ficar azul sob os braços do oponente. Morreu com a língua para fora. A calmaria então volta aos assentos do ônibus aéreo. O passageiro salvador é saudado por todos, vivas lhe são dados por uma velhinha animada que tinha muito pra viver ainda – segundo ela mesma –, o careca fica estirado pelo chão, pisoteado por passageiros assustados que ficaram valentes. João fica todo orgulhoso: agradece a Deus, que usou do passageiro forte para atender seu pedido e poupar sua velha mãe do desgosto, o avião aterrissa em Congonhas em paz, graças a João, o verdadeiro herói, anônimo e cagão, mas cheio de fé.